sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

o velho e a paragem de autocarro



Enquanto fazia o meu trajecto faculdade-casa, já de noite, reparei num homem, em pé, quase perfeitamente encostado a um dos lados de uma paragem de autocarro. O olhar dele tão fixo em mim fez-me parar. Perguntei-lhe o que fazia ali e respondeu-me que esperava o autocarro. Senti-me estúpido, procurei a censura previsível no seu rosto mas não a encontrei. Já ali estava há duas horas, sempre o mesmo ritual, sempre o mesmo sítio e eu nunca o tinha visto. Estacionei o carro mais à frente e saí para lhe fazer companhia. Assim que me sentei na paragem começou a falar:


- Não devias estar aí sentado. Sabes, este autocarro de que estou à espera, não vem. Hoje espero apenas para que não venha. Já transportou muitos passageiros esta ilusão. O destino não é sempre o mesmo. Estive a informar-me e acho que o meu não é o de hoje. Mas seja como for, tenho que esperar todos os dias a sua chegada. Só temos uma oportunidade de viajar, meu amigo. Não quero perder a viagem e ficar preso nesta dimensão para sempre, um espectro sepultado na finitude humana. Ouvi dizer que nestes dias que correm já não há muitos passageiros. Antigamente havia filas nas paragens. Parece que as pessoas deixaram de acreditar. São fantasias, não é? Cada um de vós acha que é a única pessoa sã no mundo, os outros estão todos loucos. Cegam-se uns aos outros com adquiridas necessidades de provas. Deixaram de ver que não precisam de ver com os próprios olhos a menos que queiram deixar-se enganar. Esqueceram que têm o dom inato de, com a mais profunda loucura do ser, descobrir a verdade. A normalidade é a cegueira. As almas transformaram-se em fantasmas de pano que as mães, protectoras, destapam para que se acabe com o medo das crianças, deixando-as crescer atrofiadas. É verdade que debaixo do pano está o fantasma mas como é invisível, apenas sensível, a criança vai ganhando afeição à mentira e à anormal anormalidade da mãe. O armário dos remédios estava cheio mas era apenas para o pai e esse já apanhou o autocarro há muito tempo. Podes contar esta nossa conversa amanhã aos teus colegas do trabalho, experimenta. Eles dir-te-ão que estás irremediavelmente louco, não há remédio que te valha. Já nada surpreende nestes dias que correm, já trataram de o prevenir com todas as catalogações. Se me é permitido um conselho, não te sentes no banco da paragem. Levanta-te, fica em pé, aqui ao meu lado. Assegura-te que o autocarro te sente pronto para a viagem, para a salvação. Nós, os banidos, os invisíveis, precisamos tanto quanto vocês de ser levados pela alucinação até ao nosso destino. Não tenham medo de se atirarem da falésia para o mar. Ou tenham, mas façam-no e sintam o coração a bater e ele virá para vos buscar. Acabem com a vossa deambulação pelas estradas perdidas e deixem-se conduzir. A mente livre está ao volante e não há regras de trânsito.


Sorriu para os meus olhos vermelhos totalmente abertos com todas as forças do meu rosto e perante eles desapareceu.

Não questionei a minha sorte, voltei para o meu carro, pus a primeira e arranquei para casa.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

não me parece


I've got another confession to make
I'm your fool
Everyone's got their chains to break
Holdin' you

Were you born to resist, or be abused?

Is someone getting the best
The best, the best, the best of you?
Is someone getting the best
The best, the best, the best of you?

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

familiar landscapes




I am drunk off your kiss,
For another night in a row.

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

paradoxos





Sócrates e Alcibíades roçaram-no. Platão foi mais longe. Puro e desprovido de paixões. Elemento sexual abstraído. Caso de amizade pura. Não se toca. Não se envolve.

Revisto-te de todas as fantasias e ideais.Centro-me na beleza do teu caráter. Na tua inteligência. É platónico. É perfeito.



Hoje sinto-me eu mesmo.

sábado, 24 de Outubro de 2009

eu seria um elefante, se

O esquecimento está tão cheio de memória
que às vezes não cabem as lembranças
e rancores precisam ser jogados pela borda


Mario Benedetti


Coisas que me fizeram que eu digo que esqueci são as primeiras de que me lembro.
Um sentimento que me deram e que se colou a mim que não me recordo qual era nunca deixei de sentir.
Tudo o que tranquei na cave todas as vezes se abre para mim quando um sinal sem consciência me lembra que há alguma coisa de que me esqueci. Há coisas que não cabem lá em baixo. Arrumar não me deixa mais espaço para as coisas novas que querem passar a velhas. Há coisas que à força tenho que lá deixar, o que faz com que outras surjam à porta depois de a fechar. Seja como for, o problema não é meu: é de todos quem eu não esqueci. Eles fizeram a minha cama, eu comprei lençóis especiais para agora fazer as deles. Afinal, eu não me esqueci. Acho que não me esqueci de ninguém.
Está lá tudo, no fundo, sabe-se.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

piolho freaks


O café Piolho é uma fonte inesgotável de animação, embora nem sempre pelos melhores motivos. O episódio vivido ontem teve a pretensão de reclamar o pódio. Fui interpelado por uma «escritora que não vende livros» (assim mesmo se apresentou), solitária na mesa em frente, desesperada por impingir-me o seu exemplar, que fez questão de ir buscar ao carro, sobre cujo design quis conhecer a minha opinião; e se sabia que perguntava à pessoa certa foi porque iniciou a conversa perguntando de rompante: «o menino é das letras?». Eu e o meu melhor sorriso amarelo acabaram mesmo por azedar quando a escritora abriu o naipe das questões invasivas, como se me espetasse um dedo no olho: quanto tempo demoraria a lê-lo (como se a sua oferta implicasse a minha receptividade), como é que faria para lhe comunicar a minha opinião, se tinha número de telefone, se estava por ali todos os dias. Despachei-a bruscamente e saí.

Mal por mal, prefiro as maluquinhas virtuais -- reduzem a probabilidade de sermos instados a olhar para trás no regresso a casa.


Sinto-me óptimo, vá, para lá de choramingar. Desde que não apanhe aquela doença dos porcos, está tudo bem. Seria uma injustiça, eu, um Senhor.

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Ben kweller





Os meus parceiros do musicidea, em especial o Vítor, que me desculpem por postar aqui isto, mas tenho realmente de falar deste enorme músico. Devo dizer que não é fácil eu apaixonar-me musicalmente, até porque tenho gostos bem vincados e sei o que me toca, mas este rapaz...

Escrevo este post sabendo de antemão que este vai sofrer reparos desse monstro da crítica musical, o grande Luís Soares, mas vou arriscar.



Anteriormente conhecido como apenas mais um aventureiro no pop-grunge (os seus dois primeiros álbuns não me deixam mentir ), Ben apresenta em 2006 um álbum que veio dar uma volta de 360º à forma como a crítica e apreciadores olhavam para este rapaz. Talvez seja a ordem natural na evolução de um músico, mas é neste álbum que Kweller se apresenta como uma figura madura, altamente sentimental, cheio de reflexões filisóficas e ditos dos dias idos.

O single "Thirteen" é um exemplo perfeito do sentimento e intensidade que Ben coloca nas suas letras, uma música de 4 minutos que enumera as mais belas sensações que a vida nos proporciona, desde “I kissed your dry lips, we jumped off the high cliffs and splashed down below, skin to skin in the salty river, made love in the shadows”, até ao último verso “It was in the back of a taxi when you told me you loved me, and that I wasn’t alone”.

"Penny on the Train Track" é mais um exemplo da forma simples e descomplexada como Ben vê o mundo. Fala da vida de um amigo de liceu, do percurso e caminhos que os levou a separarem-se, denotando-se o seu desconsolo pelo facto de todos nós, em todo o lado, crescermos.

Fica um exemplo:

Ben Kweller - Sundress